amores expresos, blog do ANTÔNIO

Friday, April 27, 2007

HEAVY EM TONGJI

XANGAI - HEAVY EM TONGJI

Quando eu vi, tava tocando heavy metal com Shu Xin -- ou Mister Hotness, como Virgínia e De la Rosa, as duas mexicanas apaixonadas, chamam o galã chinês de braços tatuados, cabelo na cintura e calça jeans justa e rasgada. Ele na guitarra, eu na bateria. Fazíamos uma dupla estranha. “Onde vamos parar com toda essa abertura?”, pareciam dizer os olhos esbugalhados dos velhinhos e velhinhas que passavam pela calçada e metiam a cabeça dentro da lojinha, quase uma garagem, no extremo norte de Xangai.

Quando cruzei a cidade do sul até o norte, pela manhã, não imaginava que iria acabar tocando bateria com um heavy metal simpático apelidado Mister Hotness. Fui até a universidade de Tongji, onde minha amiga Renata está estudando chinês. Lugar lind;issimo. Prédios centenários se misturam com construções modernas, em meio a chorões deslumbrantes, carvalhos e outras dessas árvores elegantes de clima temperado que devem ter nomes como olmos ou choupos ou sequóias... Flores por todo lado.

Uma enorme estátua de Mao, na entrada, acena para ninguém. Os jovens que passam de braços dados ou sós estão mais concentrados em seus I-pods do que naquela enorme mão de pedra que, até outro dia, apontava os rumos da nação. A deslumbrante primavera de Xangai só torna mais obsoleta a estátua do homem que, há pouco mais de quarenta anos, ordenou a jovens como aqueles, em universidades como aquela, que arrancassem as flores dos vasos – supérfluas à revolução do proletariado – e a grama do chão – planta burguesa, símbolo da dominação inglesa.

Cruzamos o campus e encontramos as duas mexicanas num restaurante muçulmano chinês. Quando entramos ali eu disse: Renata, se eu mostro a foto do restaurante pro seu pai ele vai te mandar mais dinheiro no fim do mês só para garantir que você coma num lugar melhorzinho. As moças me disseram que podia confiar. (Só não devia, em hipótese alguma, ir ao banheiro, porque a experiência seria traumática). E foi ali, enquanto comíamos um macarrão com carne de cabrito e coentro e outro com frango e pimentão, deliciosos, que elas começaram a falar de Mister Hotness, quase babando.

Shu Xin é um personagem de Nick Hornby, na versão chinesa de Alta Fidelidade. Passa o dia na loja de guitarras, sozinho, tocando e maldizendo o povo de Xangai que, em sua visão, só pensa em dinheiro e não entende nada de rock’n roll. De umas semanas para ca, no entanto, sua solidão é interrompida todo dia na hora do almoço pelas duas mexicanas que vão lá, conversar e sonhar com cenas de uma novela sino-mexicana. A conversa é difícil porque ele sabe muito pouco inglês. Segundo elas, apenas algumas frases aprendidas em filmes pornôs como “my dick is big and strong!” “let me see those horny boobies, baby” e outras sentenças que não se aprende no CCAA. Elas não se importam. Ficam ali a tarde toda, entre guitarras, noodles e suspiros.

Depois do almoço, fomos até a lojinha. Uma bateria velha fica bem no meio do espaço de uns quatro metros quadrados. Perguntei se podia tocar. Ele disse que só depois das duas da tarde, regras do condomínio. Passeei pela universidade e voltei lá pelas três. As mexicanas já haviam ido embora, Renata estava estudando para a prova. Cheguei meio tímido, disse Ni Hau (olá), fiz uma mímica de “eu na bateria e você na guitarra, cara!”, ele acenou com a cabeça e começamos.

Se eu fosse um pouquinho melhor poderia aplicar aquele chavão de que conversamos na linguagem universal da música, mas não toco desde a adolescência (quando eu já era ruim), de modo que minha habilidade no esperanto musical é quase tão sofrível quanto meu mandarim. Sei é que fui feliz. Tocamos por uma meia hora -- prova de que a censura chinesa não é assim tão rigorosa. No fim ele deu o cartão, eu dei meu msn e agradeci do fundo do coração (vocês não sabem como gosto de tocar, mesmo mal, bateria). Ele foi simpático como todos os chineses. “No thanks! No thanks! Come back, you want, come back, we play”. Quis retribuir de alguma forma. Quase falei pra ele, ô, Shu Xin, essas mexicanas aí, tem jogo, viu? Pode apostar, elas tão na sua... Já pensou, as duas juntas, você aplicando todo o inglês que aprendeu nas suas tele-aulas? Achei, no entanto, que Virgínia e De la Rosa, como duas boas latinas, devem saber a hora de partir pro ataque.

O que não é a globalização, não?

2 Comments:

Blogger maria teresa said...

Oi Prata, como sempre adoro o que
você escreve, me faz um bem enorme;
o que eu já ri sózinha você nem imagina, daquelas gargalhadas boas.
Que esta viagem continue neste ritmo,
com este momentos inesperados mas muito bons. Beijos, Teresa

April 30, 2007 at 2:00 PM  
Blogger mary said...

olá Antônioo es muito lindooooooo

May 27, 2007 at 11:48 AM  

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