amores expresos, blog do ANTÔNIO

Wednesday, October 24, 2007

Janela indiscreta

Incrível, nem terminamos novembro e o vizinho já encheu a varanda de luzinhas coreanas. Agora, da janela do meu escritório, vejo seu canteiro piscando -- verde, amarelo, vermelho --, anunciando que o natal está aí, é mais um ano que passou, menos um que passará.
Chama-lo de vizinho talvez seja exagero. Não moramos no mesmo prédio, tampouco na mesma rua, apenas dividimos uma faixa de ar, a uns trinta metros do chão, ele em seu prédio, eu no meu. Nessa estranha cumplicidade aérea, com as janelas por moldura, vou criando sua imagem, através de pequenos sinais.
Durante a copa, por exemplo, na varanda onde agora as pobres mudas seguram o desproporcional ornamento luminoso – me fazem pensar em bebês com colares havaianos --, balançava uma bandeira do Brasil. Meu vizinho respeita as instituições. E vive o presente, como dizem por aí. De uma forma bem expansiva, aliás: até o fim da copa, assoprou um cornetão com tamanha fúria que cheguei a pensar que fossem as trombetas anunciando o apocalipse. (Talvez fossem mesmo e, pensando bem, certos eventos dos últimos meses até que fazem sentido, à luz do fim do mundo).
O prédio do meu vizinho é todo moderno, igual a esses dos folhetos que entregam no farol. Tem uma piscina de uma raia só, sala de ginástica e, como dizia o tapume, na época da obra, trata-se de um “personal home”. Isso me intriga bastante: haverá algum lar que não seja pessoal? Talvez o termo signifique que os apartamentos tem apenas um quarto – ou dormitório, que é, paradoxalmente, o nome que o quarto tem enquanto ninguém dorme nele.
Agora imagino o meu vizinho, solitário em seu personal home, com sua piscina de uma raia só, tentando fazer contato com cornetas, luzes e bandeiras. Sinto pena dele. Um pouco de culpa também, por tratá-lo com cinismo e superioridade. Afinal, não tem nada de errado em ser brasileiro na copa, natalino no natal.
Acho que o solitário sou eu, que não me junto ao coro nacional de cornetas e rojões, não pisco na comunhão mundial de espírito natalino e luzinhas coreanas. Talvez eu sinta é inveja daquela janela, tão antenada com o resto do mundo, tão fiel ao calendário. Ele ali, defenestrando certezas e eu aqui, com minha janela deficitária, por onde só entram dúvidas e uma ou outra mariposa. Quanta pretensão, querer ser diferente... Papai Noel tá aí, gente, é uma realidade. Jingle bell, meu caro vizinho – e que venha o carnaval.

5 Comments:

Blogger Álvaro said...

vai escrever um livro sobre vizinhos?

eu acho uma boa idéia, cara.

October 26, 2007 at 7:02 AM  
Blogger mc said...

Vizinho dá sempre uma boa crônica!

October 26, 2007 at 10:33 AM  
Blogger Fernanda said...

"defenestrar": uma das minhas palavras terapêuticas favoritas!
(ass: Fernanda, a mesma do email de pegar na mão)
(nossa, acho que eu não escrevia "ass:" desde a terceira série, quando eu forjava bilhetes da minha mãe pra minha professora!)

October 29, 2007 at 9:55 AM  
Blogger helena leão said...

realmente me enveredei pelo seu blog...delicioso...quanto a janela do vizinho, confesso ser um dos meus hobbies(?) olhar a vida alheia pela janela...discordando de Nelson Rodrigues quando disse que a televisão havia matado a janela.

November 21, 2007 at 4:14 PM  
Blogger Jane Malaquias said...

O vizinho te vê emoldurado pelas luzes que tua janela reflete como um espelho. Dava um haikai.

December 7, 2007 at 5:22 PM  

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