amores expresos, blog do ANTÔNIO

Monday, October 22, 2007

Murundu

(Publicado no guia do estado)

Sempre que ouço no rádio esses boletins sobre o trânsito, sinto um leve tremor nas pernas. Não é o jargão descolado da repórter que me enerva, quando tenta quebrar o clima protocolar da narrativa com gírias como “a Jacu Pêssego vai embaçada nos dois sentidos” ou “a Jusselino Kubitchek rola sussa na região do Itaim”, mas a certeza de que, numa dessas tardes perfumadas pelo monóxido de carbono ouvirei, enfim, o boletim derradeiro de nossa civilização: a notícia de que o trânsito parou de vez.
O repórter dirá que a Marginal “está zoada” até a Dutra, a Dutra “show de horror” até o Rio de Janeiro, de onde ninguém se move até a Bahia porque pela BR 101, “mó treta”, carro já não anda, e assim sucessivamente, passando (ou melhor, não passando) por Bogotá, Manágua, Cidade do México, Vermont, até chegar na ponta do Alaska, onde um daqueles enormes caminhões americanos, se for mais um centímetro para trás, fará companhia às focas, no fundo do mar gelado. (No meio da tarde, quem sabe, haverá um boato de que existe uma maneira de ir de Pinheiros aos Jardins passando pelo Chile, mas logo será desmentido).
Chefes de Estado se reunirão em alguma ilha do Atlântico, com matemáticos, físicos e os últimos três campeões mundiais de Cubo Mágico, para debater a situação. O presidente dos EUA, dizendo que o caminhão do Alaska não pode se mexer, pedirá ao líder argentino para que a Combi na pontinha da Patagônia dê uma ré e tente ir alguns centímetros para a esquerda. Aí, quem sabe, todo mundo ande, mas Argentina, com o apoio do Mercosul, alegará que se for para trás a Combi também acabará fazendo companhia aos pinguins e, para a esquerda, de qualquer maneira, está o Chevete dourado de um paraguaio chamado Nestor, cujo motor, para piorar a situação, fundiu-se. De maneira que, todos se darão conta, o murundu rodoviário é insolúvel.
A solução virá, provavelmente, de um desses economistas americanos da moda: aterra tudo. Dessa forma, milhões de empregos serão gerados e uma das mais graves consequências do efeito estufa será neutralizada: quando as calotas polares derreterem, ninguém ficará com as canelas n’água, pois viveremos todos um andar acima. Nesse dia, a verdade tantas vezes proclamada deverá, por fim, ser aceita até pelos idosos de esquerda: com o capitalismo, mais cedo ou mais tarde, o nível de vida haveria de subir para todos.

5 Comments:

Blogger Caroline said...

Andou lendo Saramago, meu querido? Essas idéias de caos sempre me lembram os textos dele :-)
Um beijo!

November 7, 2007 at 6:29 AM  
Blogger Crix said...

Quando eu li esse texto pela primeira vez, acho que uma bendita rádio chamada SulAmerica Transito ainda não tava no ar. Hoje em dia esse tremor que já existia piora, quando estou na Marginal às seis da tarde. Fico achando que o fim chegou. E pior (!) é dificil se controlar e mudar de rádio... hahaha

November 8, 2007 at 5:00 AM  
Blogger Crix said...

This comment has been removed by the author.

November 8, 2007 at 5:06 AM  
Blogger Patricia said...

La autopista del sur

December 6, 2007 at 4:41 PM  
Blogger barbara said...

Sim, sim... Hiperbólico como Saramago, já disse um outro comentário. Caramba, você é bom mesmo. Como eu queria que o Sabino fosse do tempo dos blogs. Admirável mundo novo.

January 1, 2008 at 2:29 PM  

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