amores expresos, blog do ANTÔNIO

Monday, October 22, 2007

Cruzamento

(publicado no Guia do estadão)

Vou para o dentista, duas da tarde, meu carro corta com esforço a geléia modorrenta em que o ar se transformou esses dias. Um casal de adolescentes começa a atravessar a rua, de mãos dadas, à minha frente. Eles dão uma olhada para o meu carro, de leve, calculando. A garota faz menção de apressar o passo, o garoto a dissuade com um olhar de esguelha e, talvez, um discretíssimo aperto na mão. Eles seguem seu ritmo, lento, rumo a outra calçada.
Se nenhum de nós mudarmos nossas velocidades, acabarei por atropelá-los. É evidente que eles sabem disso, como é evidente que isso não acontecerá, pois eu venho devagar e basta pisar de leve no freio e pronto, saímos todos, são e salvos, eu para o dentista e eles para a casa dos pais de um deles, onde se deitarão numa cama de solteiro, embaixo de uma parede cheia de fotos e posteres e frases de canetinha hidrocor tipo Ju-eu-te-amo-amiga!, e descobrirão que a vida é boa. Este pequeno acontecimento me atinge em algum calo das minhas neuroses urbanas. Irrito-me porque eles fingiram que a velocidade deles estava certa, mas sabem que, se não morreram atropelados, é porque eu diminuí o ritmo. Mais ainda, talvez, porque o garoto passou para a menina a idéia, naquele olhar fugaz, de que com ele ela estava segura, de que era só confiar e tudo daria certo, eles chegariam ao outro lado da rua, depois ao outro lado do mundo, se quisessem, e seriam felizes para sempre. Mas foi o tiosão aqui quem tornou a travessia possível.
Percebo então que quem atravessou a rua à minha frente não foi um casal de adolescentes, foi a adolescência em si. E quem freou o carro não fui eu, mas a idade adulta. Pois é assim que a adolescência lida com o mundo. Não capitula: arrisca, peita. “Imagina, se eu mudo meu ritmo, o mundo é que se acostume a ele!”, e porque os adolescentes têm um anjo protetor dos mais poderosos, ou, pelo menos, uma sorte do tamanho de um bonde, acontece de chegarem, quase sempre, sãos e salvos do outro lado da rua.
Já a idade adulta pondera, põe o pé no freio quando convém, faz concessões ao mundo, dirige afinado com a sinfonia dos outros, dentro dessa outra geléia modorrenta cujo nome, hoje, soa tão adolescente: sistema. E por isso me irrito, porque ali, naquela rua, diminuindo meu ritmo, me percebo velho, adequado, apascentado. Eles vão no ritmo deles, a realidade que se vire e é assim, distraídos, que mudam o mundo.

15 Comments:

Blogger Mariana said...

Mas vc também faz isso com as coisas que escreve, Antonio.

October 22, 2007 at 8:44 AM  
Blogger Meniana said...

Eu tenho 19 e nunca senti essa coisa de adolescente de peitar o mundo e o escambal. Me acho ponderada até demais... das duas uma, ou eu teria esperado ou eu teria acelerado o passo.

October 22, 2007 at 10:07 AM  
Blogger Álvaro said...

Já fiz isso, mas - apesar de meus 20 anos - tenho esse seu sentimento quando vejo outros jovens mais fosforescentes.

October 22, 2007 at 12:18 PM  
Blogger Rory said...

Várias crônicas em um só dia. Deve ser o primeiro escritor que faz isso.
Engraçado você falar da dolescência desse jeito, eu nunca fui capaz de manter meu ritmo e os outros que se acostumem... Eu nunca pensei assim, deve ser bom!
Espero viver com essa filosofia um dia, logo! Daqui a pouco minha adolescência se esvai e ficaria meio ridiculo eu dar uma de criançinha.
Amei a Crônica, Antônio (Antônio? Que intimidade é essa?) Enfim, Sr. Prata.

October 22, 2007 at 3:38 PM  
Blogger izabela said...

Antonio, você está colocando as antigas?

Adorei a idéia, e aproveito para ser uma fã chata e fazer um pedido:

Coloca aquela crônica sua que chama-se "O Brasil na faixa" que você fala de dividir o litoral brasileiro, eu adoro ela.

Por favor.

Beijos

October 22, 2007 at 4:56 PM  
Blogger Terapia da Palavra said...

... hahaha, adorei a descrição do mural e a parte do tiosão. tô com trinta e cinco, e se bobear pra alguns já sou vovó.
amo te ler, antonio!
bj bj

October 22, 2007 at 7:12 PM  
Blogger Sorcerer said...

Achei interessante o modo como de uma situação tão simples conseguiu tirar conclusões tão estarrecedoras. Muito bom mesmo!

Eu me encontro no meio do caminho entre a adolescência e a idade adulta, e já começo a por o pé no freio. Não tanto quanto meus pais gostariam, mas ainda assim já não espero que o mundo se adapte a mim como antes.

Ainda assim, creio que, de quando em vez, “ligar o F-se” é sempre válido.

October 23, 2007 at 9:27 AM  
Blogger Michelle ^M^atraka said...

Peitar o mundo é necessário.

bjs
=**

October 24, 2007 at 12:24 PM  
Blogger ana said...

haha, acho que vc é responsável pelos últimos atropelamentos, a julgar pelos comentários...
oi antônio!

October 26, 2007 at 11:43 PM  
Blogger Mariana Jansen said...

postando crônica antiga, né?
saquei a tua. ;)

mas como eu já tinha comentado no outro blog, quando vc postou, se eles tivessem na faixa, era sua orbigação de parar, tá?

beijo.

November 10, 2007 at 6:27 PM  
Blogger Marcela said...

que bonito meu.

November 17, 2007 at 9:55 PM  
Blogger helena leão said...

lembrei de um texto da Clarisse Linspector.."por não andarem distraídos"...só sei que o trânsito é um celeiro de idéias

November 21, 2007 at 4:19 PM  
Blogger Manuel Rolim said...

Sempre que volto no blog, leio esta crônica. A melhor metáfora para adolescência que eu já li. Genial.

December 19, 2007 at 12:51 PM  
Blogger barbara said...

Já havia lido esta crônica faz muito tempo, mas não lembro onde. Não foi no Estadão, porque tou em Minas e lembraria se tivesse lido algum jornal além da Folha que não fosse mineiro. Enfim, passei os olhos nas primeiras frases e lembrei, poderia ter pulado pros próximos (estou devorando seu blog), mas a leitura flui tanto que não temos coragem de não ler até o fim.

January 1, 2008 at 2:23 PM  
Blogger Isa Rosa's said...

Um dia tu também foi assim né???
Um dia foi tu que passava bem devagar, mesmo se estivesse com pressa, e fitava o motorista com ar de superior...
Tenho certeza q foi.
Afinal não foi aceitando o q os outros "mais velhos" pensam q tu cresceu tanto e está entre os melhores hoje.
E que bom que fizeste isso, pq hoje somos mais diferentes que ontem e menos do que amanhã, graças a nós mesmos.

Amei! como todos q já li.

April 18, 2008 at 12:44 PM  

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