amores expresos, blog do ANTÔNIO

Tuesday, October 16, 2007

Seleta coletiva

(para o Guia do Estado)

Eu nunca vi a vizinha. Desde que ela se mudou para o apartamento ao lado, faz alguns meses, minha imaginação alimenta-se apenas do que deposita ao pé do lixo comum, na curva da escada.
Na noite em que se mudou, houve uma festa. Ou open house, como dizem agora. Não de arromba, com YMCA acordando os palmeirenses e professores universitários de Perdizes, no meio da madrugada. Somente música suave, risos e vozes cruzavam a parede da sala -- altas o suficiente para aguçar a minha curiosidade, baixas demais para satisfazê-la.
No dia seguinte, topei com dez garrafas de Veuve Clicquot, ao lado do lixo. Minha vizinha é fina, pensei, sem evitar que uma medíocre ponta de orgulho cutucasse minha alma barnabé: o condomínio está progredindo.
Algumas semanas depois, uma sexta-feira, cheguei tarde em casa: ouvi o burburinho. Confesso, envergonhado: mal fechei a porta, colei a bochecha na parede, na esperança de captar alguma pista sobre a moradora ao lado. Prédio antigo, paredes grossas -- dessas que não fazem a alegria de empreiteiras mesquinhas ou viúvas alcoviteiras -- ouvi apenas ruído. Tudo bem, pensei: no dia seguinte, na curva da escada... Quatro garrafas de bom vinho argentino, dentro de uma sacola da importadora Mistral, três caixas de pizza, um saquinho com cascas de lichia.
Aí a coisa azedou. Enquanto, do lado de cá da parede, malbecs e lichias eram o teto da sofisticação, coisa para jantar romântico em começo de namoro, trinta centímetros de tinta, massa corrida e tijolos para lá não passavam de acompanhamento para a pizza de sexta. O ressentimento cravou sua tachinha na bunda de minha condição AB. Vieram-me à cabeça – talvez para dar à inveja o verniz que faltava a meus hábitos de consumo – uns versos de Drummond: “não sei se estou sofrendo/ ou é alguém que se diverte (...)” – mais do que eu, pelo menos – “na noite escassa”.
Nunca vi a vizinha. Ignoro se é alta, ruiva, presidenta do Lions Club ou aborígene australiana, mas ultimamente percorro apressado os três metros que me separam do lixo bege. Não quero que ela, vendo através da sacola verde do Pastorinho umas latas de Skol amassadas, cascas de mexerica e potes de Yakult, pense que não sou digno de sua vizinhança. Ou, mais grave: se ache melhor do que eu. Afinal, nada, vindo de um vizinho, pode ser pior do que isso -- nem mesmo YMCA, no meio da madrugada.

16 Comments:

Blogger Patrício Jr. said...

acho que sua vizinha trabalha numa importadora e recebe comissão por permuta. e tomar skol é muito mais legal!

October 16, 2007 at 10:44 AM  
Blogger Terapia da Palavra said...

mmmm. sei não, eu confesso que fiquei com vontade de ir na festa da casa dela.
mas uma skol tem seu valor também, ora ora.
só não tenho vontade - nenhuma - é de experimentar a tal da lichia.

beijo! tava com saudade de te ler.

October 16, 2007 at 11:52 AM  
Blogger Gi KrDoSo said...

a curiosidadesempre acaba nos pegando...como eu que olho na direção das pessoas na minh volta querendo saber o que estão olhando -xP a vizinha?
é um vizinho gay!!hahahvinho e brokeback moutain(não sei se escreve assim)

=**

October 16, 2007 at 4:54 PM  
Blogger Carla said...

uheuahuehaue
cascas de mexerica são mesmo típicas de classe média...

Mas assim, essa gente que se faz de tão chique, na maioria das vezes são os que menos podem...
tá certo que sou suspeita pra falar, pois também tomo meus yakults e afins...

há grandes suspeitas de ser um vizinho gay mesmo! uehauheua

October 17, 2007 at 5:54 AM  
Blogger Ta said...

._. eu nunca olhei o lixo do meu vizinho! HAHAHA

October 17, 2007 at 1:51 PM  
Blogger Gatita in Love said...

Bom, pelo menos você tem a sorte de não conhecer a sua vizinha. Eu -infelizmenste- conheço a minha. Vou te dizer, se vc cruzar com ela, vai agradecer não conhecer a sua. Por que basta ela me ver que começa a falar de sua infancia na Itália, e se deixar, fala sobre isso durante horas e horas! Eu sempre tenho que ficar fugindo dela, e se ela começa, dou logo uma desculpa do tipo "A minha cadela está passando mal, tenho que vê-la". Mas nem sempre dá certo por que logo ela começa "Ah, sabe que a minha ficou doente outro dia, e eu não sabia o q fazer, então..."... é um inferno...

Bom, acho que é só isso mesmo...

Ah, e... dá uma conferida no meu blog, please?

www.gatitainlove.blogspot.com

O poema do começo eu que fiz =D... os textos tbm, mas eles são meio depressivos, então...
rsrsrs

Besitos!!!

Gaby

October 17, 2007 at 1:53 PM  
Blogger Laís Graf said...

Hmmm...
Eu sou muito mais o seu lixo que o dela...
hahaha...

October 18, 2007 at 10:33 AM  
Blogger Rita said...

tsi tsi, paciencia senhor antonio, se a moca eh mais fina q vc! :)
(ou eh tudo uma grande mentira, esse lixo eh uma farsa, soh para te por pra baixo.. maldita conpiracao!! uuuoooooo)

October 18, 2007 at 2:33 PM  
Blogger izabela said...

Eita acho que vou tomar mais cuidado com o meu lixo. Vai que alguem vê minhas caixas de Toddynho.


:*

October 18, 2007 at 4:51 PM  
Blogger Álvaro said...

E eu, que nem uma vizinha misteriosa e de bom gosto tenho para ficar fantasiando?!
Do senhor que mora ao lado não me interessa o vulto...

Agradeça, meu caro.

October 19, 2007 at 9:30 AM  
Blogger Crix said...

Hahaha, não tentou ainda colocar o copo de vidro na parede, pra ecoar o som?

Vi sua entrevista na revista da livraria Cultura, sua história é legal, a bailarina e talz, mas vc tá com uma cara de mau na foto! hehehe

Bj!

October 19, 2007 at 12:20 PM  
Blogger Deisinha Rocha said...

ah, vai ver ela só qr te impressionar...


bjOo...
tava com saudadi de um novo post...

October 19, 2007 at 5:58 PM  
Blogger =/ said...

tanananana nanananana Y M C A!

sou um desastre pra isso... xP hehehe.. mas a música é divertida!

me diga, meu caro antonio, o q fazes xeretando no lixo da tua vizinha? tem um livro, que eu nao lembro o nome, para variar, que fala de dois vizinhos que nunca se viram e um xeretava no lixo do outro. como em qualquer livro que tenha na biblioteca da minha escola, eles acabam juntos. suspeito de sua parte...
Brincadeira! ^^
Temos sempre a mania de nos comparar com os outros, e isso acaba sendo com o vizinho quase sempre. Queremos ser melhores que eles, né? O porquê nunca saberemos, mas, enquanto se pensa no assunto, abre a skol e manda a vizinha se danar!

beijos
(minha assinatura da capricho acabou! como vou sobreviver sem suas crônicas? >.<" tá bom... tô indo no mercado comprar a revista amanhã ¬¬")

October 19, 2007 at 8:18 PM  
Blogger Ludmilla said...

"verniz nos meus hábitos" foi uma metáfora genial. vou lembrar dela sempre que eu estiver pensando em economizar.

October 21, 2007 at 2:08 PM  
Blogger barbara said...

Coincidências... Fazia anos eu não comia Lichias. Ontem (bom, pra mim, Lichia foi no Reveillon, quando extravagância pode) vim a saber que aquela coisinha transparente, friinha, cuja textura da polpa lembra a de uma jabuticaba e é deliciosa, e que eu não conseguia saber o que era para experimentar de novo, era um Lichia. Pior que a extravagância (enfatizando a pobreza), é a ignorância. Mas não faço idéia de quanto custa uma Lichia.
Queria saber o que mais tem no lixo dela...

January 1, 2008 at 2:54 PM  
Blogger Luci said...

você não conhece um conto sobre um casal que começa um romance assim?
luciana

April 5, 2008 at 8:53 AM  

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

<< Home