amores expresos, blog do ANTÔNIO

Wednesday, May 2, 2007

Tinha uma costela no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma costela.

Meu caro Fabrício. Hoje faz uma semana que estou na China e por isso Deus – que pode ser um cara bem bacana quando acorda de bom humor – resolveu dar-me um presente: a costela da Manchúria. Minha vida pode ser dividida entre antes e depois desse jantar.
Fabrício, liga já pra Santo Anastácio e chama seu pai. Não importa que sejam três e meia da manhã e ele atenda de pijama e assustado: Paulinho Corsaletti precisa saber que a costela dele acaba de cair para segundo lugar no ranking mundial. Os caras da Machúria, meu amigo, acabam de desbancar o Oeste Paulista.
Eu sei que a costela do Paulinho leva onze horas para ficar pronta, mas a da Manchúria levou cinco mil anos. E o tempo de preparo da costela-- foi seu pai mesmo quem me ensinou -- é que faz toda a diferença.
Quando o primeiro faraó mandou construir a primeira pirâmide, ordenou que colocassem a costela pra assar. Morreu no dia em que a primeira gota de gordura pingou na brasa, com a sensação de missão cumprida.
Quando Moisés fugiu do Egito, muitos séculos depois, alguém perguntou: será que a gente desce a costela para a grelha? “Não!”, disse o faraó (tataraneto daquele que iniciou o churrasco), “ainda leva tempo” -- e mandou jogarem o herege no Nilo, amarrado ao nariz da Esfinge. (Dali em diante, sempre que um súdito olhava aquela estátua mutilada, lembrava do respeito que deveria ter pela costela primordial).
Quando Jesus Cristo foi crucificado, os legionários romanos que cuidavam do churrasco deram uma olhada e pensaram em fatiá-la para acelerar o processo. Deus irou-se. Jesus ainda tentou defendê-los: “perdoai-vos, Pai, eles não sabem o que fazem”, mas Ele não quis nem saber: mandou fogo e enxofre dos céus e fez com os fariseus o que eles queriam fazer com a costela: torrou.
Os templários (organização a quem equivocadamente se atribuiu a tarefa de procurar o Santo Graal ou proteger o descendente de Cristo, mas cuja única função era zelar pela correta concretização do preparo da costela) foram os responsáveis por levar a carne para a Manchúria, a fim de afastá-la das invasões árabes que estavam na Europa unicamente para tentar roubar vocês sabem bem o que.
Foi Leonardo da Vinci, o gênio, quem soube o ponto de descer a peça e aumentar o fogo, para que, nos próximos séculos, ela criasse uma casca crocante por fora, sem perder a maciez quase cremosa de dentro. Chegou à conclusão do dia e hora exatos após complexos cálculos astrológicos e astronômicos, tendo consultado alfarrábios babilônicos, persas e hebraicos -- em especial um pergaminho de Paracelso de nome Da costelae preparatum.
No século XX, os japoneses invadiram a Manchúria, mas soldados de Mao Tsé Tung e do Kuomintang, lutando lado a lado, conseguiram proteger a iguaria. O homem chegou à lua, caiu o muro de Berlim, clonaram uma ovelha, Clodovil foi eleito deputado federal e outras coisas incríveis aconteceram, mas de todas elas, a mais fantástica foi: ficou pronta a costela da Manchúria. (Semana passada, um beócio de Presidente Prudente, infiltrado na China pelo Tinhoso com o único propósito de estragar a costela, ainda falou, para o sábio chinês, de 114 anos, que terminava o cozimento de acordo com escritos de Confúcio: “vamos jogar uma cerveja em cima, pra amaciar?” O sábio cutucou a têmpora do prudentino imprudente com seu palito e fez com que ele imediatamente caísse fulminado).
Às sete e meia da noite do dia vinte e seis de abril do ano da graça de 2007, faltava apenas meia hora para o momento culminante desse processo civilizatório de 5 mil anos. Mas eu ainda não sabia de nada, sentado no banco de madeira, folheando o cardápio, ao escolher a até então desconhecida “costela da Manchúria”.
Eu quis a costela por sua concretude. Estava cansado de misturas, confusões, molhos e recheios difusos. Disso a minha vida aqui já está cheia, é só olhar pro lado, para cima ou para baixo, para fora e para dentro: estou no meio de uma wok existencial, de um yaquissoba cultural, não sei o que é porco, o que é obrigado, o que é frango, o que é gafe, o que é amor verdadeiro ou Rolex falsificado. A costela – pensei --, a costela será uma âncora de solidez simbólica nessa sopa de ideogramas, uma bóia de contornos claros nesse picadinho de sentimentos. E foi aí que a pedi, colocando o dedo indicador sobre a foto, em silêncio, como o momento – solene, agora sei – merece.
Não vou descrevê-la para não poluir a divindade da experiência com nossa vaga, humana e imperfeita linguagem. Só o que digo, Fabrício, é o seguinte. Liga pro seu pai já e explica direitinho isso tudo aqui que eu tô falando. Manda ele avisar o Buinha. Chama o Frango e o Franguinho, o Caio, o Conrado, o Camilo, o Gustavo e o tio Wilson. O Chico e o Paulo e quem mais quiser. Vamos organizar uma expedição urgente para a China. Todos têm que provar a costela da Manchúria. Só isso importa nesse momento.
Pára! Não faça essa cara de “como você é engraçado, Antonio...” Eu tô falando sério. A cidade está cheia de gente que viajou quase 30 hora por motivos tão fúteis como assinar contratos para a fabricação de telefones celulares, discutir detalhes da venda de shoyu para a Bélgica, negociar preços para compra de saltos de sapatos com Nova Hamburgo. Provar a costela da Manchúria, de todas as coisas da vida, é a mais importante. Diga que venham apenas os homens. Costela é coisa viril. Soninha, Leca, Belle, Mari e as outras hão de entender. Eu reservo hotel. Vendam os carros se preciso for. Tragam pandeiro, timba e vioão, que a gente vai cantar marchinhas de carnaval por toda a noite em Yuyuan garden, depois da costela, que nem copa do mundo. Mas acima de tudo, impreterivelmente, por tudo o que é mais sagrado, Fabrício, venham imediatamente. Parece que não eram muitas as peças que o faraó pôs na brasa. Outra fornada, só em 7007.

2 Comments:

Blogger Juan Diego aka Suddendevice said...

Uau... Que criatividade, cara!!! Essa costela só não é mais épica que a costela do Adão!!! heehe Bom post, esse!!! Té

November 19, 2007 at 2:50 PM  
Anonymous liz said...

Estou apaixonada por você! Não consigo parar de ler, e já enviei o link p/ meus amigos (apesar disso, ñ resisto a enviar texto por texto, a cada vez que me surpreendo).

April 3, 2008 at 10:50 AM  

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