amores expresos, blog do ANTÔNIO

Wednesday, July 4, 2007

Toli Tolá

Eu gostava de vê-lo abordar uma mesa. Num primeiro momento, as pessoas o recebiam com aquela armadura de cinismo que todo paulista veste ao sair de casa, para impedir que os exércitos de flanelinhas e pedintes arranquem duas ou três moedas do fundo de nossa culpa. Ele não parecia se importar. Com uma alegria infantil, o Carlitos barbudo ia tirando os bonequinhos da bolsa e anunciando-os um a um: Marciano Erótico! Zé Celso! O Pássaro do Milênio! Toli toli Tolá! Inconsciente coletivo! Delirum Tremens!
Em poucos segundos os escudos e capacetes iam sendo postos de lado, junto às bolsas e casacos. O pessoal começava a sorrir. Percebia que Armando era um artesão de títeres, cuja existência não tinha nada a ver com a desgraça brasileira -- de onde brotam crianças vendendo balas às três da manhã e adultos oferecendo incensos e “cigarrinhos naturais” por trás de suas olheiras. Tratava-se, sim, de um Calder com seu circo particular, mais filho da graça do que da necessidade.
Tenho um Zé Celso e um Marciano Erótico, que vivem há alguns anos em harmonioso enlace, na estante de livros do escritório. Meu inconsciente coletivo perdeu-se em alguma mudança, ou talvez esteja escondido no fundo de uma gaveta – morada perfeita, aliás, para um boneco com tal nome.
Apesar de nos cruzarmos pelo menos uma vez por mês, há mais de dez anos, Armando não tinha a mais vaga idéia de quem eu fosse e tampouco via muita graça em minhas sugestões: por que não fazer um Gerald Thomas para acompanhar o Zé Celso? (Podia vir com calça retrátil, dando as opções bunda pra dentro, bunda pra fora). Um Malufinho para a gente fazer vodu? Um Renan com seu boizinho dos ovos de ouro? Ele apenas sorria, dizia que ia sugerir à mulher e saía com sua bicicleta, monsieur Hulot da Vila Maria, em direção a outros bares, repetindo suas apresentações, que acabavam invariavelmente com o bordão: compra um?!
Eu o conhecia como “o Toli Tolá”, devido a música que cantava ao apresentar da cobrinha. Só soube seu nome verdadeiro ao receber de uma amiga, por SMS, a notícia de sua morte – prematura, eu diria, se não o fossem todas.
Sugiro que o dono de algum bar dê a ele a maior glória que um ser humano pode almejar: atingir a imortalidade virando sanduíche. Seu Armando ou Toli Tolá, se aqui estivesse, gostaria da homenagem e diria, abrindo os braços e sorrindo: come um?!

5 Comments:

Blogger Tati said...

Comecei a ler e já abri o sorriso, pois trouxe duas das cobrinhas pra Barcelona. Mas fiquei muito triste ao saber que ele morreu. Uma pena...
Sou pró movimento sanduíche Toli Tolá.

Beijos com saudade!

July 5, 2007 at 9:11 AM  
Blogger Edilene Fazza said...

Nossa que triste!!! Ele sempre passava e deixava a mesa mais alegre, e algumas vezes colorida, quando comprava UM!!!
Bom tenho uma cobrinha azul e nariguda...Linda. Eu voto em um bar Toli Tolá!!!

July 13, 2007 at 8:16 AM  
Blogger Bel Keppler said...

Fiquei tão triste... comecei a ler pensando em mandar msg pro meu namorado pra ler, pq sempre que estamos no bar ele aparece...aparecia.
Agora no fim fiquei chocada! Estranhamente triste, né?
Beijos!

July 14, 2007 at 5:51 AM  
Blogger anna said...

foi uma noticia muito triste, pois não sabia disso.
a minha maior alegria era sempre encontra-lo pra aumentar a minha coleção... tenho 8. coloquei uma homenagem no meu fotolog!
www.fotolog.com/annakarina7

July 18, 2007 at 8:48 PM  
Anonymous fernando said...

muito bom, cara!
vou sugerir pra um amigo meu dono de bar!

September 2, 2011 at 9:23 AM  

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