amores expresos, blog do ANTÔNIO

Wednesday, May 2, 2007

O BARULHO

Meu quarto fica no trigésimo andar do prédio e não dá para a rua, mas ainda assim a grande porta de vidro que me separa da varanda é anti-ruído. Basta abrir um palmo para que a voz da cidade tome o quarto. Vocês sabem o que é isso? Essa massa sonora ininterrupta? Essa geléia grave, grossa, cinza, áspera, que não cessa um minuto nem de noite nem de dia? É o barulho que faz um país quando cresce 12% ao ano. É guindaste, é carro, é celular tocando, é freio de bicicleta, é britadeira, é a bola de basquete batendo no chão no colégio ao lado, é gente indo de um lado pro outro, é tudo junto fazendo um brrrruuuuummmmm compacto.
Não sei se a cidade rosna ou ronrona, mas ela não se cala nunca. Há holofotes de luz nos guindastes, um bairro está afundando sob o peso do aço e do concreto, um quarteirão de restaurantes construído faz dez anos foi posto abaixo para fazerem outro.
Uma das frases que mais ouço aqui é “faz quinze anos” ou “quinze anos atrás”. Pois bem, quinze anos atrás, em 1992 – a gente ainda estava com o gosto do fiasco do Collor e da seleção do Lazaroni na garganta – Xangai foi aberta para investimento externo. Pois bem, quinze anos atrás o Pudong, que eu arrisco dizer que seja o bairro mais futurista do mundo, era uma horta. Ali, onde eu fiquei pasmo olhando as torres de vidro e esperando os carros passarem voando, havia plantações de repolho e uns porcos chafurdando na lama. Quinze anos. Mil novecentos e noventa e dois. Ou seja, ontem. É tudo muito rápido, muito potente, imponente. E barulhento.
Crescimento de dois dígitos não é apenas uma estatística nos jornais. Reflete-se na cara das pessoas. No jeito de elas andarem. Sabe quando seu time ganha e você entra no trabalho todo pimpão? Os chineses estão assim. Há uma euforia no ar. Ainda mais porque, há cinquenta anos, quando Mao resolveu industrializar o país da noite pro dia no que chamou de “Grande salto adiante”, tirando as pessoas do campo a mandando-as produzir aço, a China viveu uma fome tão terrível que, estima-se, mais de 30 milhões de pessoas tenham morrido. Elas estão aí, agora, falando no celular e usando Nike Air.
É difícil de acreditar, mas esses velhinhos que vejo na calçada jogando majong ou cartas nasceram na China imperial, viveram uma guerra civil, viram a ascensão do comunismo, passaram fome por anos, assistiram à morte de Mao e agora podem pedir o Quarteirão com queijo no McDonald’s e levar grátis super anéis atoalhados dos times da NBA. Confúcio, Marx e Ronald McDonald. É muita informação.

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