amores expresos, blog do ANTÔNIO

Wednesday, May 2, 2007

POLAINAS TUNTS TUNTS

Primeira ressaca chinesa. Ainda bem que já havia me precavido comprando o sensacional Kagome. O suco, cujo nome pode afastar o brasileiro mais pudibundo, é a versão chinesa do V8, mistura de vegetais capaz de transformar o mais combalido Mun Rá em Leo di Caprio com apenas 250 ml.
Mas há também a ressaca estética a pesar no fígado de minh`alma. O que era aquele lugar, pessoal? Para o choque que foi conhecer o club O2 não há Kagome, chá verde ou Eparema que dêem jeito.
Peguem o decorador das casas noturnas do Guarujá em 1983 e congelem. Tirem-no do freezer em 1994 e levem-no para Las Vegas por uns três dias. Congelem-no novamente. (O processo de esfria esquenta é fundamental para o resultado final). Tragam-no finalmente à vida em 2007, joguem em suas mãos um cartão sem limite de crédito e digam: crie, coração. O resultado, provavelmente, seria o O2.
A entrada era um corredor com um chão transparente repleto de luzinhas coloridas, compondo uma espécie de polaina luminosa. As paredes tinham espelhos tortos que refletiam as imagens caleidoscopicamente. (A impressão que dava é que eu ia dar no disco voador da Xuxa, não numa casa noturna em Xangai).
Lá dentro, dois terços eram chineses e o restante o que aqui chamam de expats, expatriados – nome um pouco soturno, eu acho, pois parece que estão aqui condenados ao ostracismo, mas isso é outra história.
Uns sofás com mesas de centro, onde garrafas de Chivas e bandejas de frutas eram consumidas por chinesas lindas e chineses mais velhos, alguns gordos, inclusive -- o que me pareceu suspeito nessa terra de manequins -- dava um ar de bar de mafioso cubano em Miami, desses de filme americano. Parecia que a qualquer momento um gerente de tweed ia chegar na mesa de um gordão de terno branco e dizer: “ei, baby face, Jack Perneta está na sua sala”. O gordão bateria com a bengala na mesa e diria: “quantas vezes já disse que não quero ser incomodado quando tomo meu gin tônica, Noodles?!”. O gerente, tremendo, responderia: “E-ele di-disse que é urgente, Mr. Baby...”. O gordão daria um beijinho em sua Jessica Rabit de olhos puxados, que fumaria com luvas e piteira, e diria: “já já continuamos nossa conversa, amorzinho, tenho que tratar de negócios”.
Não sei se foi o arquiteto do Guarujá quem contratou, mas numa bancada uma puta tailandesa de miniblusa e minishort dançava lascivamente. Paquita para adultos, pensei, mas logo reprimi meu pensamento, porque era um pouco triste aquela moça ali, trabalhadora solitária no meio daquela babel alcoolizada do proto-super-capitalismo xangainês. (Ui, ficou muito pretensiosa essa frase?).
Só reconheci duas músicas, embaixo da maionese sonora que o DJ (brasileiro) colocava em cima: Another brick in the wall e j’ai ne t’aime plus, mon amour, do Manu Chao. A cerveja custava os olhos da cara e, sob o efeito de muitas delas, uma enorme nórdica maluca quase levou os meus embora, quando resolveu tirar meus óculos na pista de dança. Foi a única vez na minha vida que pensei em bater numa mulher. Seriamente. Travamos uma espécie de judô adaptado (eu só pensava assim: se a mina é desse tamanho, imagina o namorado, mas felizmente, se ele existia, não apareceu) e consegui corrigir meus 5 graus de miopia antes que aquela viking desvairada tentasse morder a lente ou qualquer coisa do gênero. Coisas estranhas acontecem em Xangai.
Depois das duas, metade dos chineses estava dormindo nos sofás, a outra metade vomitando no banheiro. Segundo me disseram, isso é normal. Eles se atiram ao álcool com a mesma avidez que a outros produtos, no recém adquirido consumismo chinês, mas a pouca resistência dos orientais à bebida faz com que, depois de uma certa hora, as baladas fiquem com cara de festa de formatura da oitava série.
Fui ali com uma turma de brasileiros. Adilson e Shalom, advogados de Governador Valadares, Renata e Pablo (conexão Vera Cruz, arquitetos), Fernando, Everton e Ronson – meia, zagueiro e atacante do Shanghai Pop Stars (se não me falha a memória), Cris e Sandra, arquitetas gaúchas, mais três chineses, um cubano, um francês e uns agregados que estavam muito longe na mesa e com quem não cheguei a interagir.
Perguntei aos brasileiros se alguém já tinha conseguido contatos imediatos de terceiro grau com alguma daquelas belas moças do oriente. Quanta tristeza nos rostos dos patrícios, minha gente. Nada! Nem os jogadores conseguiram ir além do Ni hau, o que mostra que, para infelicidade dos três, o incipiente capitalismo chinês ainda não produziu alguns de nossos globalizados tipos sociais: as Marias Chuteiras. (Quanto tempo leva para a infra-estrutra criar a super-estrutura, meu caro Marx?). (Ah, agora sim tá pretensioso!)
Ao longo da noite, Everton, meia esquerda, acenava de longe, com um copo de vinho na mão: “aê escritooooooooorrrrr!”, ao que eu respondia, com uma long neck de 50 yuan: “aê meeeeeeia!”. (Aos chatoboys da Lei Rouanet: peguei no cartão). Gente finíssimas esses expats das chuteiras.
Saí à francesa umas duas e meia. Na rua, em frente ao club, uma chinesa linda não parecia nada bem em sua cocorinha etílica. “Do you need some help?”. “No, thanks”. Saí rapidinho dali. Vai que era uma das concubinas de Baby Face?

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