amores expresos, blog do ANTÔNIO

Wednesday, May 2, 2007

HYPE HOP URRA!

Hoje, meio que por acaso, descobri a rua mais bacanuda de Xangai. Tinha lido numa revista sobre uma exposição chamada I love romance e achei que, bem, vinha ao caso. Quando eu vi, tava na Galeria Vermelho deles. A rua fica na Concessão Francesa, a parte dominada pelos Pierres e Jean Jaques no século XIX e que hoje é uma mistura de Jardins com Greenwich Village. É por ali que anda o pessoal que usa Mcintosh e óculos de aro preto.
A exposição era legal, um canadense que mora em Xangai há anos e usa uma técnica clássica chinesa, recorte em papel, para fazer umas imagens pop. Dois minutos na galeria e um cara veio falar comigo, num inglês perfeito, coisa rara por aqui. Era o dono da galeria e, como Xangai é Belzonte, acabei conversando por quase uma hora com ele.
Jianwei foi para os EUA adolescente, estudou lá, virou pintor e, há poucos anos, vendo a efervescência econômica e cultural de Xangai, resolveu voltar. O cara tem um olhar bem legal, porque vê a situação de fora e de dentro, ao mesmo tempo. Falamos de Mao Tsé Tung, Picasso, Hip Hop, grafite, Brasil, economia e, quando achei que já estava abusando da paciência de Seu Jianwei, resolvi sair andando pela área.
Entre 1949 e 1980, durante todo o período em que a China comunista estava fechada para o resto do mundo (filme albanês era o máximo que eles tinham de programa internacional), as artes plásticas ficaram estacionadas. Comprei o Livro Vermelho de Mao e suas frases sobre arte são assustadoras. Para começar, o capítulo “Arte e cultura” é o penúltimo, só perdendo para “Estudo”, o que mostra o grau de interesse do Grande Timoneiro por esses assuntos, digamos assim, burgueses... Até 1980, portanto, ou se fazia arte revolucionária, ou se fazia pintura clássica chinesa, dentro da academia, e ainda assim meio escondido, porque se achassem que a montanha e o riacho que você pintou não tinham nenhum papel na educação das massas para o comunismo você podia ser tachado de “sequaz do capitalismo” e aí já era. Em oitenta abriu a porteira e a China viveu um boom de novos artistas. Hoje tem de tudo, desde o canadense misturando os recortes milenares com um clima meio Andy Warhol até, duas casas, adiante, um estúdio de grafite.
No estúdio, um chinês do Hip Hop me recebeu igualmente bem. Falou para eu entrar e ficar à vontade. O lugar é dele e de um suíço. Falei do grafite no Brasil, contei que tinham dois irmãos fazendo muito sucesso, chamados “The Twins”, e eles disseram: “oh, Os Gêmeos!”. Caramba, os Gêmeos tão até em Xangai... Fiquei de arrumar o contato. Alguém aí sabe o e-mail deles?
Saí do Hip Hop e entrei num café chamado Citizen, que vem a ser o Ritz deles -- o da Franca, não o da França. Um lugar todo descolado, com revistas descoladas, garçonetes descoladas e comidinhas descoladas. Comi um pene com frutos do mar descolado e delicioso e fiquei fazendo umas anotações no meu caderninho, me achando um escritor altamente descolado.
O que eu escrevia enquanto o macarrão não chegava era: a entrada da China no capitalismo não vai inundar o mundo apenas com tapperwares, câmeras e cuecas, mas com bens culturais que nem podemos imaginar. O que sairá dessa pororoca entre um bilhão e trezentos milhões de chineses contra a rapa? Tem um bilhão e meio de pessoas pulando dentro da piscina: vai voar água pra todo lado.
Em poucos anos esses caras do estúdio e da galeria vão estar saindo pelo mundo, nós vamos ouvir hip hop chinês, vamos ver cinema chinês e ver nosso mundo re-significado pelos olhos chineses. Vai ser interessante ver o que eles pensam da gente. (Digo “a gente” e fico me sentindo meio como o escravo da casa grande que quer fingir que é da família, mas, oras bolas, mesmo na periferia, mesmo que escurinhos, “a gente” faz parte desse mingau chamado “o Ocidente”. Aqui na China, diante deles, eu percebo o quanto).
Podemos esperar coisas fantásticas nos próximos anos.

1 Comments:

Blogger ANONIMONINO said...

This comment has been removed by the author.

June 5, 2007 at 10:22 PM  

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