amores expresos, blog do ANTÔNIO

Saturday, May 5, 2007

MC MAO OU HIP HOP LYRICS NO AUGE DO CAPITALISMO

“Put your hands in the air!”, ordena o negão, lá na periferia de Los Angeles: duzentos chineses obedecem, no centro de Xangai. Gritam hei, ho!, hei, ho!, as calças caindo e mostrando os elásticos Calvin Klein das cuecas made in China, que usam para imitar os manos lá de LA, aqui na boate Guandi, Fuxing Park. O capitalismo é mesmo um negócio fantástico.
À tarde, na feirinha de antiguidades da rua Dongtai, vi Mao de tudo o que é jeito: estátua de Mao sentado, Mao fumando em pé, Mao de roupão, Mao careca, Mao cabeludo, cinzeiro do Mao, caixinha de cigarro do Mao, camiseta do Mao, isqueiro do Mao, imã de geladeira do Mao, porta copos do Mao... Será que eles têm saboneteiras do Mao? Desisti de olhar como se fala saboneteiras no meu pequeno dicionário de mandariam: vai que tem, ia ser uma luta convencer o vendedor que eu não queria, era só um teste para ver até onde o ex-líder vai como produto.
Sei que é chavão, mas é impressionante ver um dos maiores líderes da história da humanidade na sarjeta, transformado em muamba pra turista, assim tão rápido. É diferente ver uma camiseta do Che Guevara na Benedito Calixto e, exposto numa toalha suja no chão de Xangai, um relógio cujos ponteiros são os braços do ditador até outro dia venerado como Deus. (Na época da revolução cultural, as pessoas não podiam jogar fora jornal com a foto do Mao, era desrespeito. Também não podiam guardar em qualquer lugar, porque se a foto amarelasse ou fosse comida por traças, você estava ferrado, o que criava uma situação complicada: o que fazer com os jornais? Os que não os jogaram fora depois da abertura podem agora vendê-los a turistas em feirinhas como a de Dongtai).
Os mocinhos de raios azuis venceram os malvados de raios vermelhos e agora os capacetes brancos dos soldados de Darth Vader são vendidos num mercado de pulgas interestelar. É sério, os capacetes da força aérea chinesa – falsos, provavelmente -- são vendidos para turistas ocidentais entre cachimbos de ópio carcomidos – falsos, provavelmente – e revistas pornográficas japonesas – verdadeiras. Lembram de Top Gun? Aqueles caças Mig contra os quais Tom Cruise lutava com seu F-14 entre um ou outro beijo ao som de Take my breath away tinham a mesma estrela vermelha pintada nesses capacetes – já foi o símbolo de um mundo e agora é apenas mais um logo dentro do grande mundo.com. Quase como uma marca regional de requeijão comprada pela Danone e que continua a mostrar seu nome, em letras pequenas, como um fetiche. A camiseta com a estrela sai por 25 yuans, ou seis reais. Quer vitória mais humilhante de Tom Cruise?
Penso que os bustos de Mao Tsé Tung vão ficar na sala desses americanos rosados como a cabeça de um leão ou um alce abatido na sala de um inglês no século XIX. “Hey, John, look who we’ve killed in fucking China!”. Enquanto isso, no quarto, o filho do americano vai assisir DVDs de rap piratas importados da China.
“Shake your asses, ladies!”, ordena o negão na periferia de Los Angeles e duzentas chinesas no centro de Xangai fazem o que podem – nesse ponto da anatomia, infelizmente, o crescimento chinês não surtiu nenhum efeito. Hei, Ho! Hei, Ho! As mais saidinhas dançam como as mulheres de baile funk, descendo na boquinha da garrafa, quase simulando um boquete no gangsta chino à sua frente.
É impressionante ver o momento de incubação do vírus capitalista. O desejo é uma ordem. É essa a fase pela qual os chineses estão passando. Gimme gimme shock treatment!, eles parecem dizer, querendo engolir a sociedade de consumo de uma vez, pulando dos uniformes azuis da revolução cultural para o visual de Puff Daddy sem passar por Elvis, John Lennon e James Brown. Deng Xiaoping, o responsável pela abertura econômica chinesa, disse que ela deveria ser lenta: “vamos cruzar o rio pisando numa pedra de cada vez”. Bem, culturalmente eles estão cruzando o rio correndo e aprendendo a nadar com a correnteza.
Eles aprendem rápido. Um chinês com uma espécie de roupão de ursinhos por sobre a calça jeans caída, sem camisa e com um pirulito na boca, dançando num palquinho, mostra que eles já sacaram qual é a bagunça estética do hip hop.
O rap do crioulo doido é um negócio da China. Os chineses querem ser negões da periferia de LA. O mundo todo quer ser negão da periferia de LA e aprende a levantar as mãos para o ar, com os dedos contorcidos da estranha linguagem corporal do Hip Hop.
Na feirinha, comprei uma lata porta-cigarros de Mao Tsé Tung, para dar de presente. Terminei a noite no McDonalds, com o dia nascendo. O Quarteirão com queijo é apimentado, diria John Travolta a Samuel L. Jackson, em Pulp Fiction II. Num banco, na porta, um adolescente chinês dormiu encostado no ombro de fibra de vidro do Ronald McDonald. Isso é que é pororoca, o resto é bobagem. Hei, ho!

2 Comments:

Blogger Breno Fernandes said...

Imagine quantas pessoas deixaram de ler jornal só pra não ter entulho em casa? Genial método!

May 5, 2007 at 8:06 AM  
Blogger juliana said...

Antôniooo a capricho nao é a mesma sem você com o estive pensando =((
adoro seu trabalho :D

April 29, 2008 at 9:09 AM  

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