Jadeiltite
(Publicado no Guia do Estadão)
Quando quero criar um personagem estranho, descrevo um dos meus amigos. Quando quero criar um personagem mais estranho, recorro ao Guia de medicina ambulatorial e hospitalar da Unifesp/ Escola Paulista de Medicina -- Psiquiatria; um instrumento que todo escritor deveria ter. Síndromes, transtornos, psicoses, enfim, todos aqueles comportamentos que Nelson Rodrigues chamaria de “taras” ou “manias” aparecem ali, classificados e explicados pelos doutores.
O Guia é farto mas, infelizmente, incompleto. Não há, em suas 256 páginas, uma única menção à Síndrome de Jadeilton. Trata-se da “propensão a submeter-se ao jugo de pequenas autoridades; dificuldade de fazer valer seu ponto de vista em conflitos comezinhos, acarretando grande aflição e arrependimento”. Tanto eu quanto minha namorada – cujo nome não cito, para preserva-la – sofremos desse mal.
A moça em questão vem a ser uma talentosa e indômita jornalista. É capaz de inquirir, com o belo indicador em riste, chefes de Estado e generais, assassinos e empresários -- sua voz não treme, sua mão não sua e a verdade sempre aparece.
Eis que, outro dia, essa Lois Lane brasileira resolve dar uma festa. Lá pelos quarenta do segundo tempo, seu Jadeilton, o zelador, interfona, furioso, reclamando do barulho. Minha amada gelou. Era a síndrome atacando: a opinião que o zelador teria sobre ela era mais importante do que a do presidente da república. Nunca recuperou-se completamente.
Anteontem, levei uma camisa à alfaiataria aqui do bairro. Queria encurta-la. As duas senhorinhas que me receberam, no entanto, tinham planos mais ambiciosos. “Muita informação”, disse uma, desdenhando dos quatro bolsos de minha guayabera -- uma bela camisa caribenha, que García Márquez vestia ao receber o Nobel: um símbolo de nossa latinidad. “Eu tiraria três e ficava só com o da esquerda”, continuou a outra, num ataque orquestrado, visando atingir-me no cerne de minha jadeiltite. Com um fio de voz, tentei dissuadi-las, mas elas já não eram mais duas profissionais me prestando um serviço, eram senhoras do meu destino. Perdi a guayabera, mas não suas simpatias.
Espero que os autores do Guia de medicina incluam, na próxima edição, um capítulo sobre essa covardia das pequenas causas. Não agüento mais as broncas da faxineira, estou indo à falência com os aditivos que os frentistas me sugerem e, acima de tudo, nos esconder-mos de Jadeilton atrás do vaso da portaria está ficando cada dia mais difícil.
Quando quero criar um personagem estranho, descrevo um dos meus amigos. Quando quero criar um personagem mais estranho, recorro ao Guia de medicina ambulatorial e hospitalar da Unifesp/ Escola Paulista de Medicina -- Psiquiatria; um instrumento que todo escritor deveria ter. Síndromes, transtornos, psicoses, enfim, todos aqueles comportamentos que Nelson Rodrigues chamaria de “taras” ou “manias” aparecem ali, classificados e explicados pelos doutores.
O Guia é farto mas, infelizmente, incompleto. Não há, em suas 256 páginas, uma única menção à Síndrome de Jadeilton. Trata-se da “propensão a submeter-se ao jugo de pequenas autoridades; dificuldade de fazer valer seu ponto de vista em conflitos comezinhos, acarretando grande aflição e arrependimento”. Tanto eu quanto minha namorada – cujo nome não cito, para preserva-la – sofremos desse mal.
A moça em questão vem a ser uma talentosa e indômita jornalista. É capaz de inquirir, com o belo indicador em riste, chefes de Estado e generais, assassinos e empresários -- sua voz não treme, sua mão não sua e a verdade sempre aparece.
Eis que, outro dia, essa Lois Lane brasileira resolve dar uma festa. Lá pelos quarenta do segundo tempo, seu Jadeilton, o zelador, interfona, furioso, reclamando do barulho. Minha amada gelou. Era a síndrome atacando: a opinião que o zelador teria sobre ela era mais importante do que a do presidente da república. Nunca recuperou-se completamente.
Anteontem, levei uma camisa à alfaiataria aqui do bairro. Queria encurta-la. As duas senhorinhas que me receberam, no entanto, tinham planos mais ambiciosos. “Muita informação”, disse uma, desdenhando dos quatro bolsos de minha guayabera -- uma bela camisa caribenha, que García Márquez vestia ao receber o Nobel: um símbolo de nossa latinidad. “Eu tiraria três e ficava só com o da esquerda”, continuou a outra, num ataque orquestrado, visando atingir-me no cerne de minha jadeiltite. Com um fio de voz, tentei dissuadi-las, mas elas já não eram mais duas profissionais me prestando um serviço, eram senhoras do meu destino. Perdi a guayabera, mas não suas simpatias.
Espero que os autores do Guia de medicina incluam, na próxima edição, um capítulo sobre essa covardia das pequenas causas. Não agüento mais as broncas da faxineira, estou indo à falência com os aditivos que os frentistas me sugerem e, acima de tudo, nos esconder-mos de Jadeilton atrás do vaso da portaria está ficando cada dia mais difícil.
10 Comments:
Muito bom! Essa síndrome ataca mais do que imaginamos...
Talvez seja porque nós nos rendemos à cultura cotidiana das pessoas que tratam de coisas "comuns".
Gosto muito do seu trabalho! Parabéns!
Abraços,
Ricardo
Antonio, o mundo TÁ CHEIO DE GENTE LOUCA. Olha pro lado. Anota as histórias. Não precisa nem do guia da USP. Infelizmente...
E todos sofremos dessa síndrome de Jadeitilite. Eu me sinto ameaçada às vezes pela minha própria empregada e já comprei até ferro novo porque ela não gostou do posicionamento do fio do que eu recém tinha comprado e me olhou com olhos ameaçadores.
Tratamento já! Quando descobrir qual é, please let us know.
Bisouzocas,
hauhaahuahhu.....ai antonio , você é especial por causa disso ,sabe captar pequenas coisas do cotidiano e transcreve-las com humor nos seus textos .
Eu também sofro dessa síndrome , meu caro...moro numa república que tem uma empregada e cada bronca que elas nos dá , tem mais importância e significado do que se fosse dos nossos pais rsrsr....
Quer dizer que se nós (suas fãs) dissermos que você não pode sair da Capricho de jeito nenhum, que isso é loucura. "Você não tem vergonha de fazer isso com a gente não?!", que isso é maldade... Então você volta?????
síndrome de classe média que sente uma certa culpa em dizer não. tranquilo que ela é bem mais comum do que parece....
beijo!
Gostaria da McOferta grande por apenas mais 50 centavos, senhor?
Eu menti descaradamente pra enfermeira dois dias antes de uma cirurgia(simples, mas ainda sim, cirurgia). Era uma japonesa, baixinha e de branco, amendrontadora. E eu tenho quase um metro e oitenta. Nunca vou esquecer aqueles olhos..
Li todo blog,hoje,após ver,na TVCultura,teu documentário na China.rsrsrGostei.E o Jadeilton não me pega.Minha teoria é que, assumir a responsabilidade por decisões profissionais é mais fácil do que assumir as pessoais.Meu fundamento é cultural e educacional.Se vc reclamar,mesmo educadamente,a tendência das respostas é a grossura e ninguém gosta de passar por isso e acaba passando em branco pois aqueles continuarão a serem grossos. Reclamar também é cidadania. Obrigada.
Hello nice post.
Eu ainda me lembro que há 3 anos atrás, você se juntou a Gabriela Santana Andrade para ficar me humilhando no grupo do Whatsapp de analítica 1 por você estar fazendo iniciação científica e eu não. Eu estava doente naquele dia, o que você fez comigo, não se faz nem com um bicho. Eu ainda me lembro que eu perguntei por que ninguém estava me defendendo, você falou que eu estava no fundão e a faculdade de direito ficava lá no centro, ou seja, com você faz farmácia e não direito, você não precisava me defender da humilhação, você agora fica agindo com se você não tivesse feito nada de errado, eu acho que ser psicopata é pré-requisito para se fazer iniciação científica.
Eu sei tudo sobre você, eu achei o seu perfil no Instagram e no Linkedin:
https://www.instagram.com/jessicamel.faria/
https://br.linkedin.com/in/j%C3%A9ssica-mel-da-silva-faria-2834921b0
Agora você vai se formar como farmacêutica como se nada tivesse acontecido, você representa o que a UFRJ tem de pior.
Você também é amiga de Beatriz Ribeiro de Oliveira, que é incapaz de passar em qualquer disciplina sem colar na prova. Que uma vez eu ouvi a Beatriz falando que tinha escondido a cola da professora.
A Beatriz falou tão mal da Lages, rodou todos os professores de orgânica 1 e só conseguiu passar em orgânica 1 com a Lages, agora a Beatriz está falando bem da Lages.
A Beatriz inclusive publicou esse artigo científico:
https://www.mdpi.com/2072-6643/17/17/2763
É isso o que acontece com quem cola na prova e fala mal dos outros, publica um artigo científico.
A Beatriz Ribeiro de Oliveira representa tudo o que há de errado na UFRJ.
Pode mandar o seu amigo o Guilherme de Sousa Barbosa me matar, o Guilherme de Sousa Barbosa ano passado ameaçou me bater na faculdade, mesmo sem eu ter feito nada contra ele. Manda ele vir na boca de fumo que tem em cima da minha rua mandar o traficante me matar. Aqui na minha rua funciona um ferro velho clandestino que fornece material furtado para os traficantes construírem barricadas.
Garanto que eu não vou fazer nenhuma falta, a vida é boa para quem faz iniciação científica e para quem não faz só resta à morte. Eu não vou perder a minha bolsa de iniciação científica.
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